Por Lis Comunello ● 20/07/2010
Quem me convidou foi a Srta. Bia e o meme se trata do primeiro livro lido na vida. Só que eu tenho memória de peixinho dourado, não consigo lembrar qual foi. O que eu lembro é que, assim como o Alessandro Martins, meu primeiro livro lido eu não li realmente.
Conta minha mãe que, aos 2 anos, minha diversão preferida era fazer com que lessem para mim. E as primeiras leituras na verdade não eram livros, eram os gibis do Maurício de Sousa. Os livros infantis vieram em seguida, mas antes deles eu monopolizava a atenção de algum adulto pelo máximo de tempo que eu conseguisse para que lesse para mim.
Ganhei a assinatura dos gibis, mas achava que eram poucos que chegavam a cada semana, pois eram lidos rapidamente. Aos 3 anos eu folheava os gibis e ia contando as histórias em voz alta, fingindo que estava lendo – eu já tinha decorado muitas de tanto que fazia os outros lerem para mim.
Mas embora eu não lembre qual foi o primeiro livro, recordo-me de outros que li depois. Vejo os títulos das obras da Coleção Vagalume e boa parte deles me soa familiar. Alguns em especial me fazem sorrir, ainda que eu n
ão me lembre da história de todos.
Por exemplo: A Montanha Encantada e A Mina de Ouro, de Maria José Dupré. Ah, A Mina de Ouro… Lembro-me de tentar desenhar a capa – em vão, é claro, até hoje não sei desenhar sequer um patinho usando o 2. As Aventuras de Xisto e O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida. O Mistério do Cinco Estrelas e O Rapto do Garoto de Ouro, de Marcos Rey. Entretanto, por mais que eu não me lembre do primeiro livro que li e reconheça os títulos da Coleção Vagalume, recordo-me muito bem do primeiro livro “de gente grande” que li.
Aqueles tantos livros na estante, que minha mãe tinha e eu, antes mesmo de aprender a ler, ficava admirando. Sentava no chão e ficava ali olhando aquelas capas coloridas, sonhando com o dia em que poderia lê-los. Quando aprendi a ler, minha mãe dizia que não eram para mim, que eu precisava crescer mais um pouco. Um dia me “rebelei”: escolhi um livro da estante e fui para o quarto escondida. Comecei a chorar nas primeiras páginas e não parei mais.
Zezé tinha 5 anos, mas gostava de dizer que tinha 6. Era o segundo mais novo dentre os irmãos – Luís, Totoca, Glória e Jandira. Sua mãe trabalhava duro para sustentar a família, seu pai estava desempregado e dava surras homéricas em Zezé. Logo no início do livro a família se muda para uma casa menor e Zezé faz um amigo muito especial: o pé de laranja lima que havia no quintal. Zezé aprontava, mas seu sofrimento é de partir o coração. Ele não era o diabo que pintavam e não era apenas por dó das surras que ele levava que eu chorava.
Zezé era um ótimo aluno, adorava sua professora (era o único da turma que levava flores para ela) e, embora a comida faltasse em casa e vestisse farrapos, compadecia-se com o sofrimento alheio. A professora às vezes lhe dava dinheiro para comprar um sonho na hora do recreio e ele dividia o doce com uma garotinha.
- A Dorotília é mais pobre do que eu. E as outras meninas não gostam de brincar com ela porque é pretinha e pobre demais. Então ela fica no canto sempre. Eu divido o sonho que a senhora me dá, com ela. […] A senhora de vez em quando, em vez de dar para mim, podia dar para ela.” (p. 77)
Além do pé de laranja lima, outro grande amigo de Zezé era o português Manuel Valadarez. E é durante as conversas com o português que aparece a maior parte das palavras de Zezé a respeito de si:
- Portuga, olhe para minha cara. Cara não, focinho. Lá em casa dizem que eu tenho focinho porque não sou gente, sou bicho, sou índio Pinagé, sou filho do diabo. […] Eu não presto mesmo. Sou tão ruim que quando chega o Natal acontece aquilo: nasce o Menino Diabo em vez do Menino Deus! (p. 147)
Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, foi o livro que mais me emocionou até hoje. Embora eu tenha gostado tanto de alguns livros lidos antes ao ponto de relê-los várias vezes, foi a história do menino travesso que vivia sendo espancado que me ensinou o quanto palavras escritas podem emocionar. E apesar de eu já ter relido o livro inúmeras vezes, a cada nova leitura eu choro tudo de novo, da primeira à última página.
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O livro que li tem capa diferente da que ilustra o post. É parte de uma coleção do José Mauro de Vasconcelos, capa dura e verde, que minha mãe tem desde antes de eu nascer. Os detalhes e texto da lombada, antes brancos e dourados, hoje são amarelo escuro, castigados pelo tempo – e eu não me desfaço desse livro sob nenhuma hipótese, o valor sentimental é imenso.
As passagens citadas no post foram retiradas do livro que tenho: Vasconcelos, José Mauro de. Meu Pé de Laranja Lima. 17ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1968.
Para continuar o meme, convido Carol Berthold, Claudia Regina, Dafni Nascimento, Denise Rangel e Lucia Freitas.
1 | Lis Comunello
@carolberthold, @claudiaregina, @flowerfini, @deniserangel e @LuFreitas: tem convite pra vocês no Camaleônica. http://migre.me/Yyjx =)
2 | Bia Cardoso
20 de julho de 2010 ● 12:00 pm
A @LisComunello respondeu o meme que a convidei num post bem bonitinho http://is.gd/dzjfs
3 | Meu primeiro amor | Sturm und drang!
[...] convidada, pela @LisComunello, para participar de meme Primeira Leitura, e dizer qual o primeiro livro que li, ou que me marcou, ou de que me lembre, ou algo [...]
4 | Minhas primeiras leituras | ClaudiaRegina.com/Blog
[...] Lis Comuello me convidou para participar desse meme que é sobre algo muito gostoso: contar qual foi o primeiro [...]
5 | Meu primeiro livro: O menino do dedo verde » Ladybug Brasil - Sobrevôos, descobertas, achados.
22 de julho de 2010 ● 10:10 am
[...] já tinha visto o Primeiro Livro lá na Srta. Bia. E a Lis Comunello me convidou a seguir com ele. Este é um meme que eu quase fiz sem convite – afinal, eles são [...]
[...] Lis Comunello que respondeu, convidou a Lu Freitas que respondeu. E se você continua curioso, mais gente bacana [...]
7 | Flávia
Caramba, achei que estava lendo parte da minha infância no seu relato! Muito bacana as memórias que a gente conserva dos nossos primeiros contatos com a leitura. Abraço.
8 | Lis Comunello
Estas lembranças são deliciosas mesmo. Quem sabe um dia eu consiga me lembrar do primeiro livro que li. =)
Abraços