Camaleônica

O cinema nacional a serviço da sociedade.

Por Lis Comunello ● 05/11/2009

Hoje é o Dia do Cinema Nacional e eu, apaixonada pela 7ª arte que sou, não poderia deixar passar em branco. Você certamente já ouviu falar dos Irmãos Lumière, do cinematógrafo, quem sabe até conheça um pouco da história do Cinema Nacional.

Mas ao invés de falar da história, preferi chamar a atenção para um filme em especial, pois trata de uma bandeira que defendo: a descriminalização do aborto. Trata-se de O Aborto dos Outros, de Carla Gallo, lançado em 2008.

Antes que algum cristão de plantão resolva dar sermão e apedrejar, um lembrete: a Bíblia fala em direito à vida, sim, mas também fala em livre arbítrio. E fala, também, que os que não viverem de acordo com o que Deus diz, é com Ele que se entenderão. Deus nos tirou o direito de julgar e nos deu o direito de fazermos nossas próprias escolhas. É, eu li a Bíblia, mais de uma vez inclusive, e é justamente por isso que não posso aceitar argumentos religiosos para criticar e criminalizar muitas coisas – neste caso, o aborto.

Isso posto, acredito que posso passar para aspectos práticos enquanto algum possível moralista defensor de Leis Cristãs para condenar fica pensando com seus botões se ele mesmo não está precisando cuidar do seu próprio quintal ao invés de jogar pedra no quintal alheio.

O aborto é uma realidade, acontece o tempo todo, legalizado ou não. E, embora legalizado no Brasil em alguns casos, não é uma informação que chega a todos. Assistindo ao documentário fiquei estarrecida com a atitude de um escrivão que, consultado pela mãe de uma jovem de 13 anos grávida de um estupro, apressou-se em dizer que aborto é crime. Um trator seria mais delicado que tal indivíduo.

 

 

É preciso lembrar que a legalização do aborto não é a imposição do aborto. Os abortamentos induzidos também não vão aumentar com a legalização. Num primeiro momento os números podem assustar e parecerem maiores, mas é tão somente porque não será mais preciso esconder.

Quando uma mulher deseja interromper a gravidez ela o faz independente de Leis. E deve ter o direito assegurado de escolher sobre seu próprio corpo, sem julgamentos de outrem. A mãe da jovem no documentário diz que sempre havia sido contra o aborto, porém vivendo a situação se conscientiza de que só quem está passando por isto é que consegue entender a dimensão do sofrimento, da dor, da dúvida, do medo.

E é como escreveu Túlio Vianna no post Aborto, em defesa de qual vida?: são as mulheres pobres que sofrem com a criminalização. As mulheres ricas podem custear clínicas clandestinas, com toda higiene e segurança possível. São as mulheres pobres que usam de métodos alternativos com grandes riscos. O documentário apresenta os números, deixo-os para que você veja por si.

Quando nossos políticos querem decretar alguma lei polêmica, tal como a Antifumo, é comum alegar que "nos países desenvolvidos é assim". Bem, nos países desenvolvidos o aborto é legalizado, por quê não copiamos esta lei também? A legalização vai apenas garantir que se cumpra o que já é determinado na Constituição Brasileira: a saúde é para todos, sem exceções.

Assista o documentário e me conte o que achou. Ainda que você seja contra o aborto, pelo menos conseguiu ver a situação com outros olhos, quem sabe se sensibilizar com o problema ao invés de criticar estas mulheres?

Ao questionamento se a descriminalização resolve, um médico no documentário responde com outra pergunta: a criminalização resolve?

Compartilhe:
  • del.icio.us
  • Digg
  • email
  • Facebook
  • FriendFeed
  • Google Bookmarks
  • Posterous
  • Identi.ca
  • Reddit
  • LinkedIn
  • Rec6
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • Tumblr


Related posts:

  1. Associações que meu cérebro faz.

3 Respostas para "O cinema nacional a serviço da sociedade."

1 | Fabiana V K Vidal

8 de November de 2009 ● 12:35 am

Lis,
tambem concordo que a criminalizaçao nao resolve, de forma alguma…mas independente do que diz ou nao a justiça, a biblia (a qual li apenas algumas poucas linhas), ou quem quer que seja, por experiencia propria, sou radicalmente contra o aborto.
Só sou a favor em apenas dois casos: estupro ou quando o feto possui algum problema considerado 100% letal.
É uma agreçao muito grande, tanto para a mulher, como para um novo serzinho que nao tem culpa e nem pediu pra nascer.
Por isso sou curta e grossa: fez e nao quer pra vc? Tem muita gente que quer e que esta pronta pra amar incondicionalmente.
bjao

Lis Comunello Reply:

Oi, Fabi!

O ponto é que a mulher deve ter o direito de escolher o que quer para seu próprio corpo. Existe a opção de doar, mas e durante a gravidez? E mais: sabemos que muitas mulheres preferem insistir em engravidar, mesmo após abortamentos espontâneos, ao invés de adotar, não é mesmo? O que fazer? Obrigar que estas mulheres não tentem mais engravidar e partam pra adoção? Independente do que eu acho sobre insistir ou não em engravidar, defendo que a mulher tem o direito de decidir sobre seu corpo.

Concordo que o aborto é agressivo para o corpo da mulher, mas é o corpo dela, portanto é ela quem deve decidir. Se mesmo sendo tão sofrido e tão agressivo ela prefere assim, então deve ter motivos fortes, né? E é preciso respeitar isso tanto quanto se deve respeitar a mulher que já perdeu um bebê, mas optou por insistir na gestação ao invés de adotar. E se você concorda que criminalizar não resolve, qual sua sugestão?

Quero lembrar que existem mulheres que são forçadas pelo marido, coagidas a fazer sexo em momentos que não querem. Mas como são casadas, não apanharam ou o que quer que seja, não denunciam. E aí? Foi a mulher que quis a gestação? Isso é violência também, inclusive isto é agora reconhecido em lei após a reforma da lei sobre crimes sexuais. Eu conheço uma mulher que passou por isto, vi de perto.

2 | Daniel

17 de January de 2010 ● 1:52 am

Olá, Lis. Meu primeiro comentário aqui, cheguei via Twitter.

Bem, entrevistei a Carla Gallo para o Amálgama, se vc puder dar uma lida depois.

Abs.

Escrever comentário


Assine o feed ou receba por e-mail.





Eu sou uma Luluzinha!

Luluzinhas pelo fim da violência contra a mulher.

Novartis Doação de Órgãos

Assine o Manifesto Lixo Eletrônico

Categorias

Arquivos


O conteúdo de Camaleônica, por Lis Comunello, está sob a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não-Comercial - Vedada a Criação de Obras Derivadas, Licença 2.5 Brasil. Permissões e/ou restrições além do escopo desta licença podem ser vistas e/ou requeridas na minha página de licença.