Camaleônica

O cinema nacional a serviço da sociedade.

Por Lis Comunello ● 04/11/2009

Hoje é o Dia do Cinema Nacional e eu, apaixonada pela 7ª arte que sou, não poderia deixar passar em branco. Você certamente já ouviu falar dos Irmãos Lumière, do cinematógrafo, quem sabe até conheça um pouco da história do Cinema Nacional.

Mas ao invés de falar da história, preferi chamar a atenção para um filme em especial, pois trata de uma bandeira que defendo: a descriminalização do aborto. Trata-se de O Aborto dos Outros, de Carla Gallo, lançado em 2008.

Antes que algum cristão de plantão resolva dar sermão e apedrejar, um lembrete: a Bíblia fala em direito à vida, sim, mas também fala em livre arbítrio. E fala, também, que os que não viverem de acordo com o que Deus diz, é com Ele que se entenderão. Deus nos tirou o direito de julgar e nos deu o direito de fazermos nossas próprias escolhas. É, eu li a Bíblia, mais de uma vez inclusive, e é justamente por isso que não posso aceitar argumentos religiosos para criticar e criminalizar muitas coisas – neste caso, o aborto.

Isso posto, acredito que posso passar para aspectos práticos enquanto algum possível moralista defensor de Leis Cristãs para condenar fica pensando com seus botões se ele mesmo não está precisando cuidar do seu próprio quintal ao invés de jogar pedra no quintal alheio.

O aborto é uma realidade, acontece o tempo todo, legalizado ou não. E, embora legalizado no Brasil em alguns casos, não é uma informação que chega a todos. Assistindo ao documentário fiquei estarrecida com a atitude de um escrivão que, consultado pela mãe de uma jovem de 13 anos grávida de um estupro, apressou-se em dizer que aborto é crime. Um trator seria mais delicado que tal indivíduo.

É preciso lembrar que a legalização do aborto não é a imposição do aborto. Os abortamentos induzidos também não vão aumentar com a legalização. Num primeiro momento os números podem assustar e parecerem maiores, mas é tão somente porque não será mais preciso esconder.

Quando uma mulher deseja interromper a gravidez ela o faz independente de Leis. E deve ter o direito assegurado de escolher sobre seu próprio corpo, sem julgamentos de outrem. A mãe da jovem no documentário diz que sempre havia sido contra o aborto, porém vivendo a situação se conscientiza de que só quem está passando por isto é que consegue entender a dimensão do sofrimento, da dor, da dúvida, do medo.

E é como escreveu Túlio Vianna no post Aborto, em defesa de qual vida?: são as mulheres pobres que sofrem com a criminalização. As mulheres ricas podem custear clínicas clandestinas, com toda higiene e segurança possível. São as mulheres pobres que usam de métodos alternativos com grandes riscos. O documentário apresenta os números, deixo-os para que você veja por si.

Quando nossos políticos querem decretar alguma lei polêmica, tal como a Antifumo, é comum alegar que “nos países desenvolvidos é assim”. Bem, nos países desenvolvidos o aborto é legalizado, por quê não copiamos esta lei também? A legalização vai apenas garantir que se cumpra o que já é determinado na Constituição Brasileira: a saúde é para todos, sem exceções.

Assista o documentário e me conte o que achou. Ainda que você seja contra o aborto, pelo menos conseguiu ver a situação com outros olhos, quem sabe se sensibilizar com o problema ao invés de criticar estas mulheres?

Ao questionamento se a descriminalização resolve, um médico no documentário responde com outra pergunta: a criminalização resolve?

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